Re’Pensar as megacidades para sobreviver
Crónicas

Re’Pensar as megacidades para sobreviver

Revista amar - Re’Pensar as megacidades para sobreviver
Habitat 67 em Montreal – Créditos: Direitos Reservados

 

Cada vez mais vivemos imersos numa sociedade de ruído sonoro e visual; as metrópoles esmagam a essência do Homem; os sons vitais da natureza são abafados pelo som trepidante das deslocações em massa, em horas de ponta infernais.

Uma espécie de cronómetro diário implacável mede o tempo gasto nas infinitas tarefas diárias. Enclausurados em meia dúzia de metros quadrados, em duas assoalhadas verticais posteriores, por vezes sem luz natural, os habitantes das grandes cidades estão sujeitos a um ritmo frenético, que exclui tempo e espaço para reflexões mais demoradas sobre o significado da vida urbana, repetem com elevada frequência as palavras “estou atrasado”.

As periferias das cidades alargam-se semeando bairros dormitórios, sem vida própria de comunidade, apenas envolvidos por grandes eixos rodoviários e ferroviários. As bolsas de natureza resumem-se a escassos parques públicos, mosaicos de terras baldias entre torres residenciais, vazadouros de lixos e entulhos, uma espécie de terra ninguém, onde todos põem e dispõem sem nenhum critério, sem uma política ambiental sustentável para a gestão destes territórios abandonados.

A criação de corredores verdes no âmago das megacidades surge como alternativa à massificação, permitindo a existência de manchas verdes e possibilitando a fixação de grandes quantidades de dióxido de carbono, sequelas da poluição atmosférica urbana. Os leitores mais atentos comungarão destes ideais; um novo conceito de cidade surgirá das novas abordagens da arquitetura paisagística.

 

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Gonçalo Ribeiro Teles – Créditos: Direitos Reservados

 

Um grande entusiasta destas correntes, o agrónomo versus arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, considerado como um guerreiro incansável na revolução verde das cidades, numa entrevista à Visão Verde em 2013 – republicada online no dia do seu falecimento afirmava: “As nossas elites acham que ser-se agricultor é coisa de saloios. Essa cultura pseudourbana é que é saloia”. Este decano da arquitetura paisagística em Portugal, mostrou ser um homem à frente do seu tempo, literalmente muito fora da caixa. Gonçalo Ribeiro Teles, nascido e criado numa transversal da Avenida da Liberdade, em Lisboa, que nesse ano de 1922 estava seguramente muito longe de ser a artéria mais poluída da cidade e do país. O nosso utópico sonhador relembra esses tempos com uma frase desconcertante: “Aquilo era tudo hortas, à volta. Lembro-me de as vaquinhas virem à avenida, aos sábados”.

O nosso entrevistado devido à sua formação académica defendeu em várias publicações sobre o tema, uma nova perspetiva da arquitetura paisagística. Citando o autor, no seu livro Um Novo Conceito de Paisagem Global: Tradição, Confrontos e Futuro, considera “uma Paisagem Global como uma visão globalizante que liga o passado (tradição) à construção de um futuro próspero desejado. Na sua origem, estão a organização das paisagens históricas e os sistemas de utilização dos recursos naturais. Visa uma humanização do espaço onde as comunidades humanas compreendem e valorizam a natureza segundo as suas próprias regras”.

A sustentabilidade das cidades passará pela interpenetração das paisagens históricas com os sistemas de utilização dos recursos naturais, tendo como finalidade a humanização das megacidades e a sua eficiência como habitat sustentável para a fruição das cada vez mais numerosas comunidades humanas. A maior dependência das megacidades na obtenção de alimentos frescos para consumo dos seus habitantes, proporciona a oportunidade de produzir localmente esses hortícolas.

Em 1960, no seu livro A Árvore em Portugal, em coautoria com o seu mentor Caldeira Cabral, o arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles defendia a necessidade de assegurar a agricultura, nas cidades e a fixação da população no interior, nas zonas de baixa densidade populacional. Em Portugal no início da segunda década do séc. XXI, ainda há muito a fazer neste aspeto.

 

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Parque Hortícola em Lisboa – Créditos: Direitos Reservados

 

Voltando à entrevista supracitada, ao ser interpelado para apontar soluções exequíveis para aumentar a sustentabilidade das megacidades respondeu que: “É o que se está a fazer noutros países. A palavra de ordem, nos EUA, é o regresso à agricultura tradicional. Em Chicago, abriram, agora, 26 mercados de frescos, para vender os produtos produzidos na própria cidade. E 30% dos ativos agrícolas para lá dos Pirenéus já são pessoas “mistas”, que têm empregos em centros urbanos e uma casa com quintal, nos arredores, onde trabalham a terra. Construir a cidade, hoje, é fazê-la voltar a isso.”

Em Portugal estas novas tendências vão fazendo caminho; as hortas comunitárias começam a ser uma realidade um pouco por todo país, a grande maioria semeadas de forma tradicional, outras semeadas de forma mais inovadora, utilizando as técnicas de aeorponia e hidroponia. Os agricultores estão sempre à procura de formas de plantar que aumente a quantidade de plantas por metro quadrado e que potenciem a produção em relação ao cultivo convencional. A utilização destas tecnologias depressa ficou ao alcance dos agricultores urbanos domésticos em kits.

Neste momento, alguns leitores vão franzindo o sobrolho em jeito de desconfiança, considerando uma utopia esta revolução agrícola urbana. Contudo, os factos desmentem esta desconfiança à priori como bem evidenciam as hortas urbanas, na cidade de Lisboa, uma perseverança durante décadas do engenheiro – arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles.

Em 2018 a cidade de Lisboa já contava com seis hortas comunitárias, Parque da Quinta da Granja, Horta de Telheiras, Parque Hortícola de Carnide, Parque Hortícola dos Olivais e Jardins de Campolide. A mais recente, o Parque Hortícola de Carnide, situada na freguesia de Carnide, tem uma área total de 2,5 hectares, divididos por 106 talhões para cultivo. Integrada no corredor verde periférico, entre o Parque Urbano da Quinta da Granja, em Benfica, e o Vale de Ameixoeira, em Santa Clara. O leitor mais cético poderá refugiar-se num preconceito empírico deixando uma pergunta pertinente: A poluição poderá afetar a qualidade das culturas, aparentemente expostas a um meio ambiente agressivo? Fica a resposta para os mais céticos: em 2016, um estudo feito pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA), em parceria com a Câmara de Lisboa e com a Junta de Freguesia de Alvalade, avaliou seis hortas. O estudo revelou elementos no solo e águas com valores acima dos recomendados, mas a qualidade do que é produzido nestas hortas não saiu afetada: os produtos não estavam contaminados.

E se fizéssemos do ato de cultivar, um ato de desobediência civil.

A revolução alimentar silenciosa passaria por cada um de nós começar a semear, cultivar e produzir grande parte da nossa alimentação. O exemplo das hortas comunitárias de Lisboa seria um exemplo a seguir, contudo temos que ter consciência que existem alguns riscos nessa agricultura. Apesar de tudo, consequentemente, os produtos expostos pela grande distribuição nos seus expositores de frescos, embora supostamente controlados, enfermam por vezes dos mesmos problemas, quanto à sua inocuidade química.

 

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Horta em Várzea de Calde – Créditos © Carlos Cruchinho

 

Em 2013 Marc Estévez Casbosch (1) deu uma entrevista à Magazine do Diário de Notícias onde à questão:

– Mas, há cada vez mais produtos biológicos nos supermercados. Não se pode dizer que cultivarmos a nossa própria comida seja a única solução.

– Sim, há corredores inteiros de produtos biológicos nos supermercados. Mas são embalados em plástico e produzidos pelas mesmas pessoas que cultivam os vegetais cheios de químicos, ou alterados geneticamente. Simplesmente criam nas mesmas quintas áreas de cultivo em que abdicam de alguns químicos. Mas usam solos contaminados, continuam a produzir em série e cobram três vezes mais. Eu não gosto do nome «agricultura biológica», porque é um conceito mercantil. Aquilo a que deveríamos dar nome era aos produtos envenenados e transformados, não aos naturais. A solução para uma alimentação saudável é cultivarmos os nossos próprios produtos.

– Acredita que um dia todos teremos a nossa própria horta?

– Se alguma coisa este milénio nos está a mostrar é a consciência coletiva de que podemos tomar as nossas próprias decisões. Estamos a assistir como nunca antes a um tempo de desobediência civil, em que as populações põem de facto em causa o que as instituições lhes dizem que é obrigatório. Não sei se vamos ter todos uma horta, mas que esta tendência vai continuar a crescer, vai. De certeza.

Richard Stenguel no seu livro Caminhos de Mandela, com excertos inéditos do diário de Madiba, no capítulo 15, intitulado Encontre a sua própria horta, referindo -se ao preso 466/64 afirma “mesmo numa remota e linda ilha – Ilha Robben, Mandela precisava de um lugar à parte. Um lugar onde se pudesse perder para se encontrar. Então, no começo da década de 1970, apesar de todos os seus problemas, Nelson Mandela decidiu plantar uma horta. Num mundo no qual não tinha privacidade e poucos bens, a horta foi um pedaço de terra que era inteiramente dele. Num mundo que não podia controlar, que o afrontava e punia, que parecia hostil aos seus valores e aos seus sonhos, ela era um lugar de beleza, regularidade e renovação. O esforço era recompensado. As estações mudavam com ordem regular. As sementes transformavam- se em plantas. Os caules cresciam. As folhas germinavam.“

 

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Toronto Tree Tower – Créditos: Direitos Reservados

 

O futuro passa seguramente por Re’Pensar as megacidades para sobreviver. Será o futuro uma simbiose perfeita entre a arquitetura e a natureza? O projeto Tree Tower da Penta pretende criar um verdadeiro arranha-céus ecológico, fornecendo aos seus residentes um ar mais fresco e uma pegada de carbono menor. O uso extensivo de madeira estabelecerá metas ambiciosas de sustentabilidade e será um catalisador para o desenvolvimento da construção nas megacidades. Uma possibilidade de encontrar a nossa própria horta, num ato de desobediência civil, alimentando o sonho duma revolução agrícola urbana voltando à génese da humanidade.

Carlos Cruchinho

Licenciado no ensino da História e Ciências Sociais

 

(1) Estreou-se a semana passada em português com Uma Horta Para Ser Feliz [ed. Arte Plural], mas é autor de uma boa uma dezena de livros em espanhol. Especialista em horticultura e cogumelos, é uma autoridade em tudo o que tenha a ver com autoalimentação. Nasceu e cresceu em Barcelona e só começou a cultivar aos 20 anos, quando se mudou para os Pirenéus. Tem 32 anos, uma mulher e um filho e tudo o que os três comem é fruto dos 15 minutos diários que Marc dedica à horta. O resto do tempo, além dos livros, dedica-os a conferências, workshops e seminários.

Bibliografia consultada:

  • visao.sapo.pt/visao_verde/ambiente/2020-11-11-goncalo-ribeiro-telles-o-guerreiro-incansavel/
  • paisageiro.com/blog/goncalo-ribeiro-telles-vida-e-obra
  • dn.pt/revistas/nm/cultivar-um-ato-desobediencia-civil-3471377.html?id=3471377
  • nit.pt/fora-de-casa/na-cidade/as-hortas-urbanas-continuam-a-invadir-lisboa
  • http://www.saserj.org.br/uploads/2016/06/14/downloads/os-caminhos-de-mandela.pdf
  • https://www.behance.net/gallery/55626045/Toronto-Tree-Tower

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