Bernardino Ferreira: Uma História de Resiliência e Emigração - Bernardino Ferreira
Entrevistas

Bernardino Ferreira

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Bernardino Ferreira, nasceu há 68 anos em Barcelos, mas foi a Trofa que o viu crescer desde os primeiros meses de vida. Por isso, sente-se filho dessa terra onde se fez homem. A vida de Bernardino tal como de tantas outras pessoas, foi feita de terra nas mãos, de passos pequenos em caminhos de lama, de fruta roubada nos quintais dos vizinhos, de infâncias curtas demais para quem nasce com o peso da responsabilidade antes do tempo. A dele começou assim, no coração de uma casa cheia de gente, de trabalho e de silêncios que ensinavam mais do que muitas palavras.

Foi nos campos, ao lado do pai, que aprendeu cedo o significado do esforço. As vindimas, a apanha da batata, os dias longos sob o sol ou debaixo da chuva não eram apenas tarefas; eram uma forma de pertença, quase um ritual de família. Dividia os dias entre a escola e a terra, entre os livros que adorava e a consciência dolorosa de que, sendo o mais velho de nove irmãos, o futuro dificilmente lhe permitiria escolher apenas aquilo que queria ser.

A vida empurrou-o cedo para o trabalho, para as oficinas de madeira, para os estaleiros da construção, para turnos pesados e noites mal dormidas. Mas nunca conseguiu matar dentro de si a inquietação de quem acreditava que o mundo podia ser maior do que as ruas estreitas da sua terra. Havia nele uma fome silenciosa de futuro, uma vontade funda de quebrar destinos já escritos para tantos homens da sua geração.

E foi essa inquietação que o levou a atravessar o oceano rumo ao Canadá, com pouco dinheiro no bolso, saudades nos ombros e um medo escondido no peito. O que encontrou do outro lado não foi uma vida fácil, mas foi uma vida construída a pulso, entre a entrada ilegal no país, sacrifícios, trabalho duro, lutas sindicais, comunidade, doença, família e resistência.

Esta é a história de um homem que nunca deixou que a dureza da vida lhe roubasse a capacidade de sonhar e sorrir. Porque há pessoas que passam pelo mundo apenas vivendo e há outras que, mesmo caindo algumas vezes, insistem em construir caminho para todos os que vêm atrás delas. Um caminho feito de exemplo, de força e resiliência.

 

Infância na Trofa: os campos, a escola e a responsabilidade precoce

Nasci em janeiro de 1958, em Barcelos, mas fui para a Trofa ainda muito pequenino. Na verdade, considero-me da Trofa, porque foi ali que cresci, que fiz os meus amigos e vivi toda a minha infância. Somos nove irmãos e eu sou o mais velho. Isso marcou-me muito desde cedo.

As maiores recordações que tenho da infância são do trabalho da terra com o meu pai. Ainda hoje, quando penso nesses tempos, lembro-me das vindimas, das apanhas da batata, das tardes inteiras nos campos. Havia muito trabalho, mas eu gostava daquilo. Gostava genuinamente. Era uma alegria acompanhar o meu pai e sentir que estava a ajudá-lo. Aquela ligação à terra ficou comigo para sempre.

Depois veio a escola. Também guardo muitas memórias desses anos. Dos amigos, das brincadeiras, das travessuras próprias da idade. Íamos roubar fruta aos vizinhos, fazíamos malandragens, mas tudo dentro daquela inocência de miúdos de aldeia. Ainda hoje, quando vou a Portugal, encontro alguns desses amigos. Alguns já partiram, infelizmente, mas muitos continuam lá. E quando nos juntamos, parece que voltamos logo àquele tempo.

Eu gostava muito de estudar. A minha professora primária e o padre da freguesia insistiam muito com os meus pais para que eu continuasse a estudar depois da quarta classe. Diziam que eu tinha capacidades, que havia ali “muito sumo para tirar”. Chamaram-me uma vez para conversar e perguntaram-me se eu queria estudar. E eu disse logo que sim. Era mesmo a minha paixão. Eu queria aprender, queria continuar na escola, queria construir alguma coisa através dos estudos.

Mas a vida, naquela altura, era diferente. Eu era o mais velho de nove irmãos. Havia um ano ou ano e meio de diferença entre cada um. A minha mãe não conseguia fazer outra coisa senão tomar conta daquela casa cheia de crianças. O meu pai trabalhava muito, mas sozinho o dinheiro que ganhava não chegava para sustentar toda a gente.

Lembro-me perfeitamente da conversa da professora e do padre da freguesia com o meu pai. Ele explicou à professora e ao padre que precisava de mim a trabalhar. Disse-lhes que sozinho não conseguia dar conta do recado, a família era grande e a minha mãe não trabalhava fora de casa. E eu compreendi isso muito cedo. Foi aí que deixei um bocadinho de ser criança. A responsabilidade entrou na minha vida cedo demais.

Os primeiros trabalhos: da marcenaria à construção civil

Comecei a trabalhar muito novo, numa marcenaria. Fazíamos camas, guarda-fatos, mobílias. Aprendi muito ali. Ainda hoje digo que aprendi uma profissão a sério naquele tempo. Comecei por fazer as coisas mais simples e depois já montava camas, costas de móveis, armários. Ia aprendendo depressa.

Mas também era um tempo duro. Naquela altura os aprendizes levavam pancada. Qualquer erro dava direito a um cachaço. Aquilo custava-me bastante. Eu queixava-me em casa. A minha mãe dizia para eu aguentar, que aquilo fazia parte da vida. O meu pai não concordava muito. Dizia que ninguém tinha direito de bater nos filhos dos outros. Mas naquela época era assim.

Acabei por sair da marcenaria e fui para a construção civil, como servente. Era um rapazola ainda, mas tinha de trabalhar. Não havia outra hipótese. E, apesar de fazer aquilo porque era obrigado, eu andava sempre a pensar que queria mais qualquer coisa da vida. Não me resignava.

Foi também nessa altura que comecei a namorar a minha mulher. Ela tinha 13 anos e eu tinha 14 e tal. Crescemos praticamente juntos. Casámos muito novos: ela com 17 anos e eu com 19. Pouco depois nasceu o nosso primeiro filho.

Continuei a trabalhar na construção até conseguir entrar para a Petrogal, em Matosinhos. Aí comecei a sentir que talvez pudesse construir uma vida mais estável. Trabalhava bem, os chefes gostavam de mim e eu dava tudo no trabalho. Mas os contratos eram sempre temporários. Renovavam seis meses, depois mais seis meses. Nunca havia segurança.

Mais tarde, através de dois tios meus, surgiu a oportunidade de ir para a Siderurgia Nacional, na Maia. Fiz entrevistas, testes psicotécnicos e acabei por entrar. O ordenado era parecido ao da Petrogal, mas havia mais estabilidade. O problema eram os turnos. Trabalhava-se uma semana da meia-noite às oito, outra das quatro à meia-noite, outra das oito às quatro. Dormir de dia nunca foi fácil para mim.

Mesmo assim fui andando. Já tinha dois filhos pequenos e o terceiro vinha a caminho. Mas quanto mais olhava para a minha vida, mais sentia que estava preso. Eu via homens da minha idade encostados às portas dos cafés, sem perspetivas, presos à mesma rotina. E pensava muitas vezes: ‘Se eu continuar aqui, vou acabar igual.’

 

A decisão de emigrar: o sonho de dar mais aos filhos

Foi aí que comecei a pensar seriamente em emigrar. A minha ideia inicial nem era o Canadá. Eu pensava mais na Austrália ou nos Estados Unidos. Um dos meus melhores amigos tinha ido para a Austrália pouco antes e falava maravilhas daquilo. Dizia-me que havia trabalho, qualidade de vida, oportunidades. Fiquei entusiasmado. Fui à embaixada australiana, preenchi formulários, entreguei documentação. Também procurei informações sobre os Estados Unidos. Mas nada avançava.

Nessa altura apareceu um amigo meu que vivia no Canadá. Era professor de História em Portugal e aqui tinha conseguido equivalências para dar aulas. Falei com ele e expliquei-lhe a minha situação. Disse-lhe claramente: ‘Eu quero sair daqui. Quero dar melhor vida aos meus filhos.’ E nunca me esqueci da resposta dele. Disse-me apenas: ‘Aparece cá. Trabalho não falta.’ Aquilo ficou-me na cabeça.

Cheguei a casa e disse à minha mulher: ‘vou-me embora para o Canadá.’ Ela ficou surpreendida porque nunca tínhamos falado nisso. O Canadá nunca tinha estado nos nossos planos. Mas comecei a fazer contas. Naquela altura, o dólar canadiano valia muito dinheiro em escudos portugueses. E eu pensei que talvez ali estivesse a oportunidade que procurava. Só havia um problema: eu não tinha dinheiro para a viagem.

Fui falar com o meu sogro e com o meu cunhado. Pedi-lhes dinheiro emprestado para comprar o bilhete de avião. Eles ajudaram-me. Comprei um bilhete da TAP para Montreal, com ligação para Toronto. Trouxe apenas 500 dólares canadianos comigo. Era tudo o que tinha para começar uma nova vida.

A chegada ao Canadá: sozinho e sem mala

Cheguei ao Canadá em 1985. Primeiro Montreal, depois Toronto. Quando aterrei em Toronto fui procurar a minha mala… e ela tinha desaparecido. Fiquei apenas com a roupa que trazia no corpo. Passei 45 dias sem a mala aparecer.

Não passei pela imigração nem nada. Ninguém me parou e quando dei conta já estava fora do aeroporto, completamente sozinho. Nem sabia bem o que fazer. O meu amigo nem sequer tinha ido buscar-me ao aeroporto. Comecei a ouvir pessoas a dizer que os familiares tinham ficado presos na imigração e fiquei com medo. Eu tinha apenas um papel com a morada dele escrita. Apanhei um táxi e fui até lá.

Quando cheguei à casa, bati à porta e apareceu a filha do dono. Disse-me que o meu amigo tinha ido para os Estados Unidos passar o fim de semana. Naquele momento fiquei aflito. Não conhecia ninguém, não tinha mala, não tinha roupa, não sabia para onde ir. Pensei mesmo que ia acabar a dormir na rua. Mas o dono da casa, um açoriano também chamado Manuel, acolheu-me – ele sabia que estava para chegar nesse dia. Levou-me ao basement onde alugava quartos pequeninos a trabalhadores. Um desses quartos já estava reservado para mim. O quarto era tão pequeno que praticamente só cabia a cama.

Fiquei ali a tentar perceber o que fazer à vida. Na segunda-feira o meu amigo chegou e ajudou-me. Emprestou-me umas calças de ganga, uma camisola e o Sr. Manuel emprestou-me umas botas de trabalho.

Na terça-feira comecei logo a trabalhar na carpintaria. Nunca mais parei. Trabalhava todas as horas que apareciam. Aos sábados também. Queria aproveitar tudo. E talvez também fosse uma forma de fugir às saudades que começaram a bater muito forte. Eu via aviões a passar e ia abaixo psicologicamente. À noite chegava ao quarto completamente destruído emocionalmente. Os outros portugueses, colegas de casa, percebiam e tentavam animar-me.

A vida ilegal no Canadá e a chegada da mulher

Passado algum tempo percebi que não aguentava sem a minha mulher. Disse-lhe ao telefone: ‘Se tu não vieres, eu volto para Portugal.’ Ela acabou por vir, mas claro também de forma ilegal.

Combinámos tudo ao detalhe. Uma amiga nossa, a Fátima Mourão, ia buscá-la ao aeroporto e a minha mulher iria dizer que vinha apenas visitá-la durante um mês. Mas a imigração desconfiou.

Eu estava no aeroporto para a ir buscar com a Fátima Mourão e chamaram-me pelo intercomunicador e eu fiquei cheio de medo. Sabia que, se aparecesse, podia ser deportado. Aguentei algum tempo e acabaram por chamar a Fátima. Fiquei todo satisfeito, na minha ideia a partir desse momento estava tudo a correr bem, mas a oficial da imigração era muito esperta. Perguntou à Fátima onde é que eu estava, ela respondeu que não sabia, que devia estar em Portugal, mas a oficial de imigração disse-lhe “não mintas, porque ela já me disse que o marido está aqui à espera dela (isso era mentira, a minha mulher não tinha dito nada disso, mas pronto), acabaram por me chamar de novo e, entretanto, a Fátima veio ter comigo a dizer o que se passava. Aí percebi que não tinha alternativa, fui. E assim descobriram tudo. Entrei no gabinete. Interrogaram-me durante horas. Perguntaram-me há quanto tempo estava no Canadá, se trabalhava, como tinha entrado (porque não havia nenhum registo de entrada no meu passaporte). Insistiam muito a perguntar se eu trabalhava. Eu neguei sempre. Só que o oficial pediu para ver as minhas mãos, cheias de calos da carpintaria, e perguntou-me: ‘Estas mãos são mãos de quem não trabalha?’. Mesmo assim continuei a negar. No fim deram-me 15 dias para abandonar o Canadá. Nunca fui embora. Consegui um advogado através de amigos portugueses. Paguei-lhe com dinheiro emprestado. A minha mulher acabou por conseguir ficar legal e nós aqui continuámos, a trabalhar e a lutar.

 

Os filhos longe e o reencontro da família

Os nossos filhos ficaram em Portugal durante nove meses. Foram talvez os meses mais difíceis da nossa vida. Ao domingo telefonávamos para eles. Nem os meus pais nem os meus sogros tinham telefone em casa, por isso eles iam ao café da aldeia à hora combinada para receber a chamada. Nós ficávamos sempre a chorar depois de falar com eles. Ao fim de nove meses decidimos mandar vir os três.

Quando chegaram ao aeroporto voltei a ser chamado pela imigração e pensei logo: ‘Agora é que estamos tramados.’ Virei-me para a minha mulher e perguntei: ‘também vens?’ E ela respondeu – ‘claro, se tivermos que ir de volta para Portugal, vamos os 5’. Chegámos lá o oficial de imigração perguntou ‘então como é isto?’, e eu respondi ‘olhe eles são os nossos filhos, nós estamos aqui e a família é para estar junta’, ele só disse ‘vocês têm coragem’. A verdade é que ele engraçou com os miúdos, viu-nos juntos e acabou por deixar a família sair, mas deu-nos um prazo para resolvermos a situação.

Os miúdos entraram logo para a escola, passados meses já falavam inglês. E nós continuámos a nossa vida, a trabalhar.

Um dia, mais tarde, fomos à imigração. Eu parecia o Egas Moniz, com a corda ao pescoço. Contei tudo o que se tinha passado e ele disse para preencher uns papeis e disse que se fosse cumpridor e dissesse a verdade que era melhor para mim. Passados uns meses fomos chamados. Chegámos às 9 da manhã e estivemos lá a ser entrevistados até o meio-dia e meia, até ele ir almoçar. Fomos também dar de comer aos miúdos. Chegámos lá e entregaram-nos os documentos de residentes permanentes. Nunca vou esquecer aquele momento. Vi o oficial a aproximar-se com os papéis na mão e comecei logo a chorar. Foi como quem tirasse um peso enorme de cima da nossa vida.”

A união, o sindicalismo e a liderança

Sempre trabalhei na carpintaria aqui no Canadá. Foi a minha área desde o primeiro dia. Entretanto comecei a envolver-me cada vez mais na união. Naquela altura, sindicalizavam praticamente toda a gente da construção. Mesmo estando ilegal, acabei por entrar para a união, eles fizeram-me membro debaixo de um nome de um amigo meu, lá da terra, chamado Joaquim Oliveira, eu tinha um cartão dele e eu era o Joaquim, no trabalho. Comecei a participar nas reuniões, a falar, a envolver-me. Era muito vocal. Não tinha medo de dizer o que pensava. Comecei a ser conhecido, comecei a envolver-me. Com o tempo fui ganhando respeito e responsabilidades. Passei por várias lutas internas, campanhas, eleições e conflitos dentro da organização. Mais tarde entrei na liderança da Local 183 com a equipa liderada pelo Jack Oliveira e acabei por assumir responsabilidades importantes, incluindo o cargo de vice-presidente.

Foi uma caminhada longa, feita com muito trabalho e muita lealdade. Sempre acreditei que uma união só funciona se houver confiança entre as pessoas. E acredito que grande parte do sucesso da Local 183 veio exatamente disso: de haver uma equipa que trabalhava e trabalha ainda hoje verdadeiramente unida. E também por termos um líder como o Jack, com muita visão e sempre a trabalhar para dar o melhor aos membros e aos reformados. A Local 183 está em boas mãos, está bem entregue. Foi uma coisa que da qual eu fiz parte. Eu tenho uma honra e um orgulho muito grande de pertencer a LiUNA 183 e tenho um orgulho muito grande em ter as pessoas que lá estão a gerir a União, pessoas em quem se pode confiar e eu confio neles como se eles estivessem a gerir o meu dinheiro.

A defesa da cultura portuguesa e o trabalho comunitário

Apesar de viver no Canadá, dentro da minha casa sempre existiu Portugal. Eu dizia muitas vezes aos meus filhos: ‘Aqui é território português.’ Eles falavam inglês na escola, claro, mas em casa falava-se português. Além disso, todos os meus filhos frequentaram a escola portuguesa. Fazia questão disso. A minha mulher teve um papel enorme nessa ligação às raízes. Sempre manteve os filhos ligados à família, aos avós, aos tios, a Portugal.

Também me envolvi muito na comunidade portuguesa. Frequentei clubes, participei em organizações e durante muitos anos estive ligado ao Arsenal do Minho.

Quando entrei no Arsenal, o clube estava praticamente falido. Havia dívidas por todo o lado. Mas quando aceitei o desfio que algumas pessoas me fizeram e passei a presidir à direção, eu e as pessoas que estavam comigo arregaçámos as mangas. Eu e a minha mulher dedicámo-nos muito àquilo. Ela ajudava na cozinha, organizavam-se festas, jantares para 400 pessoas e era ela e outras duas ou três amigas que faziam tudo na cozinha. Conseguimos levantar o clube.

Mais tarde também participei na direção da ACAPO e nas celebrações do 10 de Junho. Sempre senti que era importante preservar a cultura portuguesa aqui no Canadá.

O cancro e a mudança na forma de olhar para a vida

Quando me disseram que tinha cancro, a minha vida mudou completamente. Até ali eu vivia muito focado no trabalho, no dinheiro, na responsabilidade. Trabalhava sempre. Pensava sempre no próximo objetivo. E, de repente, um médico olha para mim e diz: ‘Tens cancro.’ Foi como se o céu me caísse em cima. Fiquei completamente em choque. A minha mulher e os meus filhos também. Quando saí de lá, deitei logo fora os cigarros e o isqueiro. Nunca mais peguei num cigarro. Nem vou pegar. Aquilo ajuda a destruir a nossa saúde. Durante dias parecia que toda a família andava perdida. Os meus filhos e a minha mulher andavam aí, um por cada canto. Eu comecei a interiorizar aquilo e disse não. Chamei-os e disse ‘eu não morri, eu ainda estou aqui vivo. E ainda me ides ver aqui muito tempo? Eu estou disposto a lutar contra isto. Vocês não desanimem. Eu preciso é do vosso apoio, ok?’ e comecei a reagir. Disse a mim mesmo que não podia desistir.

O apoio da família foi fundamental. O apoio dos meus colegas da União também. O Jack Oliveira esteve sempre presente. Deixou-me trabalhar de casa durante os tratamentos e nunca me pressionou.

Tive uma operação difícil, tratamentos complicados, mas nunca deixei que o desânimo tomasse conta de mim.

E foi aí que percebi uma coisa importante: o dinheiro só faz falta para aquilo que precisamos de gastar. O resto não vale nada comparado com a saúde, com a família e com o tempo.

Depois da doença comecei a viver mais. Começámos a viajar, a aproveitar mais os momentos, a estar mais junto da minha família e dos meus amigos.

O sonho que ainda quer concretizar

Para o ano faço 50 anos de casado. E tenho um sonho muito especial: quero renovar os votos em Portugal, na mesma igreja onde casei.

Na altura casámos numa quinta-feira de chuva. Foi um casamento muito simples, básico mesmo, sem festa. Éramos novos, a vida era difícil e não havia possibilidades para mais.

Agora quero voltar lá com os meus filhos, os meus netos, toda a família. Quero sair daquela igreja como os outros casais saem. Com alegria, com festa, com a família toda à volta.

Esse é um dos sonhos que ainda quero concretizar. E vai acontecer, no próximo ano.

Entrevista: Madalena Balça | Fotos: Família Ferreira

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