José Silva e Os Lords: Uma Jornada de Música e Superação no Canadá - José Silva
Entrevistas

José Silva

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José Silva - Revista Amar

A vida de José Silva nasceu junto ao mar e cresceu ao som de uma guitarra. Começa em São Miguel, na vila da Povoação, há 85 anos, numa casa que a morte visitou cedo demais, e atravessa o Atlântico duas vezes — primeiro entre ilhas, depois entre continentes — antes de se fixar, finalmente, num país que lhe deu o que a sua terra nunca pôde dar: uma casa, um carro e uma família a salvo da pobreza.

Esta é a história de um menino que ficou órfão de pai com pouco mais de um ano, e que aos doze já enterrava a mãe. A história de um rapaz que aprendeu sozinho a arrancar música de uma guitarra de fado velha, porque ninguém lhe pôde ensinar, e que descobriu na ilha Terceira não só o instrumento que lhe havia de mudar a vida, mas também a amizade e o sustento que a família lhe não pôde dar. É a história de um soldado que perdeu a memória numa cama de hospital em Lisboa e teve, literalmente, de recomeçar a existir. E é, sobretudo, a história de um homem que trocou os palcos pelas fábricas, a guitarra pela pá e picareta, para que os filhos pudessem ter aquilo que ele nunca teve.

Há, neste percurso, uma espécie de obstinação serena — a de quem aceita o que a vida lhe atira e dela faz, ainda assim, qualquer coisa de bom. José Silva não escolheu a pobreza da infância, nem a doença que lhe roubou a memória, nem a partida abrupta de uma mãe demasiado nova para morrer. Mas escolheu a guitarra. Escolheu a Terceira. Escolheu o Canadá. E escolheu, ano após ano, o trabalho silencioso que sustenta uma família, mesmo quando isso significou pendurar definitivamente o instrumento que mais amava.

As palavras que se seguem são a sua própria voz, organizada em fases de uma vida longa: a infância marcada pela falta, a juventude que floresceu ao som da música, a provação da tropa, a aventura da emigração, os anos de trabalho e de palco partilhados, e o orgulho tardio de ver essa mesma música renascer nas mãos do filho. É um retrato sem adornos, contado por quem o viveu — e que, mesmo depois de tantas perdas, escolheu sempre, no fim, ficar grato.

 

Infância em São Miguel

A minha infância em São Miguel foi, infelizmente, marcada pela perda. O meu pai faleceu quando eu tinha um ano e três meses, e a minha mãe ficou viúva com seis crianças — eu era o mais novo, o Humberto o mais velho, que teve de sair da escola para ir trabalhar. A vida foi terrivelmente difícil para a minha mãe. Uma viúva jovem, na minha terra, ficava debaixo dos olhos do mundo: bastava sorrir a alguém para o seu nome ser posto a leilão na boca das pessoas. Era duro para uma mulher sozinha cuidar de seis filhos que só sabiam comer. Mas a vida foi seguindo, pobre, mesmo pobre.

Saí da escola com nove anos e fui trabalhar. Pouco depois, morreu também a minha mãe. Eu tinha perto de doze anos. A partir daí a vida tornou-se ainda mais difícil, sobretudo na vila da Povoação, onde a pobreza era enorme e as pessoas viviam praticamente à base do mar. Um dos meus irmãos partiu para a ilha Terceira, onde diziam que havia mais hipóteses de trabalho por causa da Base Americana, e eu pouco tempo depois segui-o.

Terceira: a descoberta da música

A ilha Terceira era, antes de mais, uma ilha cheia de alegria, com festas quase todo o ano. Foi ali que cresci, dentro daquele ambiente terceirense, e que arranjei amigos verdadeiros, pessoas que souberam olhar por mim. Foi fantástico, mas também terrivelmente difícil, porque passei a viver sozinho, ajudado apenas por quem me quis ajudar.

Desde criança que tocava guitarra de fado. Ninguém me ensinou, há coisas na vida que se aprendem por instinto. Tínhamos uma velha guitarra em casa; eu já sabia tocar, mas os dedos eram pequenos demais para fazer mais ou melhor. Fui crescendo e a guitarra tornou-se algo muito especial para mim.

Quando cheguei à Terceira, alguém me disse que, se tocasse viola elétrica, ganharia bom dinheiro na base americana ali instalada. Isso entrou-me no miolo, porque o meu problema era mesmo a falta de dinheiro, eu vivia sozinho. Fui uma vez a uma sociedade de artistas, vi lá uma guitarra elétrica, peguei nela, experimentei umas posições, e formámos um conjunto simples no Recreio dos Artistas, em Angra do Heroísmo: os Jovens Unidos. Foi ali que conheci os meus futuros cunhados. Tocávamos sobretudo por gosto, mas como não fomos logo aceites num certo grupo, passámos a tocar todos os sábados no Sport Club Angrense. Ganhávamos pouco, mas aquele pouco já dava um jeito à vida. Foi assim que me fui desenvolvendo na guitarra elétrica.

A música, para mim, sempre foi algo muito especial. Se me pusessem uma partitura à frente, eu não sabia ler nada, mas qualquer música que o mundo tocasse, entrava na minha cabeça e ficava, e depois com a habilidade que tinha na guitarra, não me custava aprendê-la. 

Mais tarde fui convidado para integrar o Conjunto Insular do Recreio dos Artistas, no lugar de um músico, o António Amaro, que tinha partido para o Canadá. A custo deixei os Jovens Unidos, éramos todos rapazes da mesma idade, mas um homem mais velho avisou-me que, se não aproveitasse aquela oportunidade, perderia a chance de tocar num conjunto melhor. O Conjunto Insular já tocava na base americana, e foi ali que me desenvolvi com a música inglesa, pronto para tocar em qualquer formação. Quando surgiram os Beatles e outros grandes conjuntos, também tocávamos as músicas deles.

Nessa altura passei a viver só da música: tocávamos todas as semanas para a base americana e também para os portugueses. A vida tornou-se uma maravilha, já não tinha família por perto, só amigos que me adoravam. Mas depois chegou a idade da tropa, e tudo desapareceu.

 

A tropa e a doença

Fui para a tropa e tive de deixar a música. Fui para o Continente tirar duas especialidades, dactilógrafo e cripto, e depois fui colocado nos Açores: primeiro em São Miguel, depois na Terceira, como eu queria. Mas certo dia recebi uma mensagem secreta, em código, e ao decifrá-la vi o meu próprio nome: José Silva, primeiro-cabo operador cripto, mobilizado para a Guiné. Foi um calafrio.

Tive duas semanas de férias e depois segui para Lisboa, para me apresentar ao Comando antes de partir para a Guiné. Estava em forma, mas tivemos de fazer um exercício como se já estivéssemos na guerra, com pistolas e tudo o resto, apesar de a minha função, sendo de operador cripto, exigir normalmente mais resguardo. Nesse exercício apanhei uma gripe forte do lado esquerdo do ouvido e perdi a memória por completo. Fiquei tão doente que me esqueci de tudo: da minha noiva, da guitarra, de tudo. Perdi completamente a memória. Levaram-me para o hospital em Lisboa e, a partir daí, comecei a minha vida praticamente do zero.

Eu ainda era solteiro nessa altura, tinha apenas a minha noiva, na ilha Terceira. Mas, com a doença, todas as minhas especialidades desapareceram da memória. Fui à junta militar, que reconheceu que eu já não estava em condições de seguir na vida militar, e fiquei livre da tropa. Voltei aos Açores, livre, mas tive que recomeçar tudo de novo.

Um novo começo

Como já não tinha família que cuidasse de mim (os que me ajudaram quando cheguei à ilha Terceira tinham emigrado para a América), fui viver para casa dos meus sogros, ainda nessa altura nós ainda éramos solteiros, e fui reaprendendo tudo, devagar, até a vida se normalizar.

Tinha vinte e cinco anos, e já era casado, quando decidi vir para o Canadá. A ideia nasceu quase por acaso: um amigo casou-se na ilha Terceira e fomos tocar para o casamento dele. Nessa noite, disse ao noivo que tinha a impressão de que, um dia, iria parar ao Canadá, porque lá tinha uma irmã e um irmão. Algum tempo depois recebi uma carta desse mesmo amigo, que entretanto tinha emigrado, a perguntar se eu ainda queria vir, e a dizer que já havia um conjunto à minha espera. Fiquei com uma certa alegria e entusiasmo e decidi vir, de início só de visita.

Vim sozinho e por cá fiquei até hoje.

Os primeiros anos no Canadá

Cheguei ao Canadá e fui para casa da minha madrinha, irmã da minha mãe, que me acolheu sem me cobrar nada enquanto não tinha trabalho. Assim que arranjei emprego, comecei a pagar a minha parte, o que era justo, porque comia e dormia em casa dela.

Devo dizer uma grande verdade: quando pisei terreno canadiano, respirei fundo, tal como quando pisei terreno terceirense e o coração trabalhou melhor. O Canadá é um país enorme, com muitas possibilidades de vida, e decidi logo que estava disposto a aceitar o que aparecesse. O meu primeiro trabalho foi pegar numa pá e numa picareta, quando na Terceira só tocava guitarra. Mas fui aprendendo a viver, trocando de emprego até encontrar o meu lugar.

Entretanto, cerca de um ano depois de eu chegar, a minha esposa veio também para o Canadá, e tudo recomeçou outra vez. Se na Terceira a minha vida era só tocar guitarra, aqui tive de enfrentar qualquer trabalho, comecei a abrir caminhos e fazer limpezas. No Canadá temos de enfrentar a vida seja de que maneira for. A minha esposa, que na Terceira nunca tinha trabalhado, quando cá chegou também foi trabalhar, para uma fábrica de sapatos, porque aqui, se a mulher não trabalha também, a vida fica torta. Fomos os dois mudando de emprego até chegarmos a um ordenado que nos servisse.

Nunca me arrependi de ter saído de Angra do Heroísmo, ainda que lá tivesse uma vida razoável. Foi aqui, no Canadá, que tive a possibilidade de comprar casa, comprar carro, e ver nascer os nossos três filhos. A vida prosperou, com a ajuda da minha esposa, que também trabalhou, porque aqui, se só o homem trabalha, a vida fica torta; quando os dois trabalham, tudo se normaliza. Na minha terra, nunca tive a possibilidade de ter carro, de ter casa, de ter alguma abundância. O Canadá é um país que dá felicidade a toda a gente.

Sempre com a paixão pela música por perto

Quanto à música, comecei logo a tocar com um conjunto local, mas percebi rapidamente que era muito fraco. Tinha dois saxofones, uma viola e uma bateria, mais parecia uma filarmónica do que um conjunto profissional. Eu vinha de um conjunto a sério, na Terceira, e disse-lhes isso sem rodeios. Responderam-me: “Zé, tu mandas no conjunto, faz dele aquilo que quiseres.” E assim fiz. Reduzi os saxofones a um, ensinei o baixista a tocar viola, trocámos o baterista. Mesmo assim, aquele conjunto não deu em nada e acabei por sair.

Formei mais tarde Os Lords. Trabalhava numa fábrica de travões para automóveis quando comentei com um amigo que precisava de um organista, porque já tinha um bom baterista e um bom baixista, que era meu cunhado. Apareceu na minha secção um rapaz vindo do Continente a quem tive de ensinar a trabalhar na máquina: o Pedro Alegre. Um colega revelou-me que esse rapaz tocava órgão. Fui a casa dele ouvi-lo tocar e percebi logo que era o músico de que precisava. Foi assim que nasceram, de facto, Os Lords, com o Pedro Alegre a trazer também o irmão, o Carlos Alegre, que tocava bateria.

 

Os Lords — doze anos de música

Os Lords duraram doze anos. Tínhamos os nossos empregos, mas a música era, digamos, um part-time, tocávamos sobretudo aos fins de semana. Fomos muito bem aceites pela comunidade portuguesa, porque tocávamos música moderna, não só rock and roll, mas aquilo que todo o mundo gostava de ouvir. Tivemos sorte.

Ao fim desses doze anos, os Alegres quiseram juntar mais dois elementos ao conjunto (um saxofonista e um baterista) ficando o Carlos Alegre como vocalista. Eu opus-me: o conjunto tinha sido formado por mim, nessa altura já tínhamos pagado o investimento que fizemos em material, estávamos a começar a ganhar bom dinheiro para nós e eu sabia que os clubes não podiam pagar a seis elementos. Além disso, qualquer um de nós já cantava, individualmente ou em conjunto, sem necessidade de um vocalista dedicado. Disse-lhes que não entrava mais ninguém. Fizemos um último serviço, uma passagem de ano em Mississauga, por quatro mil dólares o que era muito dinheiro para a época, e ali terminaram Os Lords, o conjunto que todos os clubes portugueses conheciam.

Mais tarde, formei de novo Os Lords, com o meu cunhado e mais dois elementos. Comprámos aparelhagem nova e um ano depois, já com tudo pago, o meu cunhado decidiu deixar a música para arranjar outro trabalho. Foi nesse momento que tomei a decisão: não há mais música na minha vida.

E assim foi: nunca mais toquei em conjunto nenhum. Arranjei um emprego numa fábrica de tintas e produtos de construção, a TM, onde fiquei vinte e dois anos, e comecei a trabalhar de noite.

E isto porque acho que tudo tem um limite na vida: quando comecei a trabalhar de noite na TM, e havia sábados em que tinha de trabalhar, precisamente quando o conjunto ia tocar. Tive de escolher entre a música e o trabalho. E foi aí que Os Lords acabaram, definitivamente.

Roberto: o orgulho do pai

A música era a minha felicidade, e tenho hoje um filho que é músico de profissão. Quando íamos tocar para os clubes, os músicos levavam as esposas e os filhos, e o Roberto, ainda pequeno, sentava-se à minha frente a ouvir o conjunto. Em casa, ainda bebé, já punha as mãos na guitarra. Aprendeu rapidamente. Não fui eu que o ensinei, ele aprendeu por si, como eu próprio aprendi sozinho. Via o ambiente dos músicos à sua volta, olhava sempre para mim a tocar, e foi assim que cresceu na guitarra. Com catorze, quinze anos, já tocava bem, formou o seu próprio conjunto e foi evoluindo até tocar profissionalmente, sozinho.

Ver o meu filho tocar, o meu Roberto que todos conhecem na comunidade como Reno Silva, é algo que me entrou na alma. Vi-o nascer, vi-o crescer, vi-o aprender e senti um orgulho enorme ao ouvi-lo tocar já como profissional, fazendo coisas na guitarra que eu próprio já não conseguia fazer, depois de ter esquecido tudo o que sabia quando fiquei sem memória na tropa. Disse-lhe sempre: continua, vale a pena, mas nunca te esqueças de ter um trabalho profissional e deixar a música apenas como part-time. E foi exatamente isso que ele fez.

Regresso aos Açores…

Durante muitos anos não voltei nem à Terceira nem a São Miguel, embora sentisse saudades. Sempre pensei que primeiro vem a vida, depois os prazeres: se havia casa para pagar, carro para pagar e família para sustentar, não se podia andar em viagens. Primeiro paga-se o que se deve; depois, com a vida normalizada, é que se pensa em passear.

A minha esposa, sem eu saber, foi guardando dinheiro à parte, até que um dia me disse que tínhamos de ir aos Açores. Eu resisti, não queria gastar dinheiro nisso enquanto houvesse contas por pagar, mas ela já tinha comprado as passagens. Fez-me essa surpresa porque sabia o quanto eu gostaria de rever a ilha Terceira e São Miguel.

Quando cheguei à Terceira, gostei muito de rever a ilha, sem dúvida. Matei saudades de amigos, dei a volta à ilha, e fiquei com tudo visto. Percebi que a ilha Terceira já não era lugar para mim, porque foi no Canadá que tive a possibilidade de comprar casa, de ter carro, de desenvolver a família, de ter uma vida com dinheiro. Gosto muito da Terceira — foi lá que cresci, que aprendi a tocar guitarra elétrica, que fiz grandes amigos, incluindo o chefe da polícia, que tocava trompete comigo e era um homem honesto, mas…  

Com o Canadá sempre no coração

Foi nas ilhas açorianas que nasci e me fiz homem, mas o Canadá é um país onde toda a gente pode dar um passo em frente. Não troco o Canadá por nenhum outro país, embora goste muito de Portugal e das ilhas açorianas. Ninguém me arranca daqui.

 

José Silva com os seus filhos e netos. Da esquerda para a direita: Mason, Pearl, Tristen, Reno, Addy, Floor, Michael, José, Fernanda, Shanti, Paul e Demien.
© Angie Alegre

Entrevista: Madalena Balça | Fotos: Família Silva

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