Matilde Onofre nasceu com o destino marcado pela resistência. A sua vida não se mede em bens ou glórias, mas na firmeza do passo, na coragem de todas as madrugadas mal dormidas, na verdade simples dos gestos que constroem uma família. D. Matilde Marques Tavares Onofre pertence a esse grupo raro e precioso de mulheres que carregam a história dentro do olhar. Aos 100 anos de idade, celebrados com a serenidade de quem sabe ter cumprido o que a vida lhe pediu, continua a ser um farol silencioso para as quatro gerações que dela descendem.
Natural de Salreu, concelho de Estarreja, nasceu numa época e num lugar onde a infância terminava demasiado cedo. Há quem cresça entre brinquedos, mas Matilde cresceu entre os arrozais, com os pés enterrados na terra húmida e os olhos postos num horizonte que ainda não imaginava que cruzaria um dia. Começou a trabalhar por volta dos nove, talvez dez anos – não tem a certeza porque no campo não se registam aniversários de começos, apenas necessidades. A escola, essa, tocou-lhe apenas de passagem. O suficiente para aprender a escrever o nome, o essencial para a vida seguir o seu curso sem nunca lhe dar tempo para mais.
A dureza dos campos marcou-lhe o corpo, mas foi moldando um carácter que a acompanharia até ao centenário: uma teimosia doce, uma força silenciosa, uma fé inquebrável e a convicção profunda de que o trabalho honesto, por mais duro que fosse, acabaria sempre por abrir caminho. Nos campos de arroz, ao lado de mulheres que, como ela, faziam da enxada e das mãos calejadas a sua sobrevivência, aprendeu a resistir. Aprendeu também o valor da entreajuda, porque no campo ninguém avança sozinho.
Foi também em Salreu que conheceu o homem com quem partilharia a vida, com todas as alegrias e todas as dificuldades que viriam a existir entre ambos. O casamento não foi um romance, foi uma caminhada e Matilde nunca o esconde. “Não, não foi uma vida feliz”, repete sem amargura, apenas com a clareza de quem sabe que a verdade não se esconde. “Ele tinha um feitio diferente do meu… mas eu tinha os meus filhos, e pelos meus filhos enfrentava tudo.” E enfrentou. Com a firmeza resiliente de quem não abdica do essencial: a proteção, o cuidado e o futuro daqueles que trouxe ao mundo.
A vida em Portugal era dura. O campo era generoso em trabalho e miserável em rendimento. Quando quatro filhos já enchiam a casa, quando o futuro parecia apertado demais para caber na terra onde tinham nascido, Matilde e o marido tomaram uma decisão difícil: emigrar para o Canadá. Matilde tinha então quarenta anos e o coração cheio de receios. Viria com o marido e os quatro filhos, deixando para trás tudo o que conhecia, tudo o que a tinha moldado.
Hoje, com cem anos, fala com a simplicidade de quem nada pede e tudo agradece. Sorri com aquele ar antigo que só os rostos marcados pela vida conseguem ter: a pele fina, suave, quase intacta apesar do século vivido; os olhos ainda cheios de uma luminosidade que parece vir de dentro; e uma postura de mulher que sempre caminhou com a cabeça erguida, mesmo quando o peso do mundo insistia em cair-lhe nos ombros.
As raízes em Salreu
D. Matilde nasceu “lá”, como diz, sem precisar de grandes explicações. Lá, onde o mundo começava no campo e terminava nas margens do rio Antuã. Onde as crianças não tinham tempo para imaginar quem seriam quando crescessem, porque cresciam ao ritmo da enxada e da estação do ano. Começou a trabalhar cedo, demasiado cedo, como tantas raparigas do seu tempo. A infância foi curta, quase inexistente. “A minha infância não foi muito boa”, diz sem drama, como se contasse algo banal. Aprendeu a escrever apenas o nome, mas aprendeu, sobretudo, a sobreviver.
Casaram, tiveram quatro filhos, mas Portugal no início dos anos 60 era um país estreito, duro, sem espaço para sonhar. “A minha terra não foi capaz de me dar uma vida boa. Obrigou-me a sair”, disse-nos numa mistura de mágoa e aceitação.
O destino começou a mudar quando o irmão de D. Matilde, já emigrado no Canadá, enviou uma carta de chamada. A decisão foi tomada com receio, mas tomada. Aos quarenta anos, idade em que muitos já pensam em abrandar, ela partiu com o marido e os quatro filhos. Deixaram para trás a aldeia, os hábitos, o cheiro do campo e uma história que já não lhes prometia mais nada.
O Canadá que a recebeu
Quando chegaram ao Canadá, foram acolhidos pelo irmão de Matilde. “Tinha receio porque não sabia o que ia acontecer…”, confessa 60 anos depois, com um sorriso que mistura gratidão e espanto pela própria coragem. Aterraram em Toronto nos meados da década de 60, onde enfrentaram uma cidade fria, estranha, onde a língua parecia um enigma e a neve escondia todas as ruas. Chegaram em pleno inverno que já tinha trazido uma camada forte de neve. Aprendeu rapidamente que é preciso ter cuidado a caminhar pelas ruas da cidade porque a neve, por vezes, esconde escorregadias placas finas de gelo. Na memória de Matilde está bem vivo um episódio que a faz sorrir, quando o conta como se tivesse acontecido ontem: “Quando cá cheguei tinha caído uma camada de “snow” muito forte e eu tinha uma sobrinha que tinha nascido, era bebezinha, e eu ia à Augusta com ela ao colo e ali aos pé dos Bilhares da Augusta, antes eram os bilhares agora não é, escorreguei com a menina ao colo, mas não a deixei cair, levantei-me e tive que seguir o meu caminho. Podia ter-me aleijado ou aleijado a menina, mas felizmente não”… levantou-se, sacudiu a neve e continuou o caminho. No fim de contas, foi assim que viveu sempre: quando caía, levantava-se e seguia.
Os primeiros anos não foram fáceis. Matilde descreve-os como “um bocado difíceis”, uma expressão que, na sua simplicidade, esconde as muitas horas de labor, cansaço e renúncia. O marido começou a trabalhar na construção. Ela, habituada ao campo, adaptou-se a tudo o que surgia. Trabalhou na apanha das cenouras e dos tomates, como tantos portugueses que encontraram na agricultura sazonal uma forma de começar de novo. Trabalhou também nas limpezas de casas, sempre com um ritmo que parecia sobre-humano: trabalho fora, trabalho dentro, filhos para cuidar e educar e uma vida inteira para reconstruir.
Uma das experiências de trabalho mais marcantes foi a apanha de minhoca durante a noite. Um trabalho duro, mas que, como ela diz, “dava um dinheirinho”. “Aquilo dava muito trabalho a apanhar. Era de noite e a gente tinha de andar à procura onde havia. Tinha dias em que não havia nada e outros dias sempre se apanhava alguma e ganhava-se um dinheirinho”. Chegava de madrugada, cansada, mas os filhos esperavam por ela. Não havia tempo para descanso. Havia uma casa para sustentar, quatro filhos para criar, uma vida inteira para reconstruir do zero. “De manhã, quando voltava para casa, tinha os meninos para tomar conta. Depois atrás da minhoca vinham as cenouras, os tomates… O início de vida no Canadá foi um bocado difícil, mas acho que valeu a pena vir para cá”.
Portugal sempre presente
Viveram primeiro na Brunswick, onde havia sobretudo portugueses. Ali, entre vizinhos que falavam a mesma língua, cozinhavam os mesmos pratos e rezavam aos mesmos santos, D. Matilde nunca sentiu urgência de aprender a língua do país que a acolheu e até hoje, aos 100 anos, não fala inglês. Vivia entre portugueses, trabalhava com portugueses por isso “falava português com as pessoas, e as minhas filhas falavam inglês por mim quando era preciso”, explica. Afinal, vivia num Portugal em miniatura, dentro do Canadá real.
Fazia comida tradicional, “tudo português”, desde a sopa ao bacalhau, ao peixe. O único lamento: a falta das enguias, que tanto apreciava e tanto lhe faziam falta. A saudade da terra expressava-se muitas vezes no sabor da cozinha, na música, nas festas da igreja, nas memórias das procissões onde tanto gostava de ir.
Hoje vive com a filha mais velha e o genro, rodeada de filhos, netos, bisnetos e até tetranetos, uma família numerosa que a admira profundamente e que vê nela o pilar de tudo o que tornou possível. O orgulho é mútuo: Matilde enche-se de emoção quando os olha. “Quando olho para os meus filhos, para os meus netos, para os meus bisnetos, tetranetos, quando olho para toda a minha família, sinto muito orgulho. E gosto de dizer-lhes. Sinto que consegui que eles todos se sintam portugueses também.”, diz com um sorriso. “Eles falam todos português. Têm que falar para falarem comigo, mas gostam. Gostam das comidas portuguesas, gostam de tudo o que é nosso.” Nisso vê a sua maior herança: a cultura que passou adiante. E Matilde orgulha-se do que construiu: “A minha grande obra foi educar os meus filhos”. Não fala de casas, de poupanças, de bens. Fala de gente. De amor. Criou os filhos nesse equilíbrio entre a nova terra e as raízes que nunca se quebraram.
Ao longo da vida, visitava Salreu de vez em quando, mas nunca pensou regressar definitivamente. “Quando vim para aqui, foi para ficar”, diz sem hesitação. Voltar para viver em Portugal nunca foi uma hipótese. O ciclo tinha-se fechado. Portugal era a infância, a juventude dura, a terra onde aprendeu o valor do trabalho. O Canadá era o futuro, a segurança, a continuidade da família. Por isso não hesita em afirmar que quando embarcou rumo ao Canadá, sabia que era para ficar. Para sempre.
O amor, a dor e a coragem silenciosa
A vida conjugal não foi fácil. “Se foi uma vida feliz? Nem por isso. Não, não foi. Não foi. Tive uma vida de trabalho, saía para trabalhar e chegava a casa tinha que trabalhar também, mas não me arrependo disso..”, admite com aquela sinceridade que só os muito velhos têm coragem de usar. “Ele tinha um feitio diferente do meu, mas eu que havia de fazer? Tinha os meus filhos… tive que aturar. Pelos meus filhos e netos, tudo!”. Há nesta frase toda uma geração de mulheres portuguesas, que viveram com mais dever do que liberdade, mais silêncios do que escolhas.
A vida de Matilde Onofre não foi leve, os últimos anos ficaram marcados por perdas. Perdeu o marido… e os olhos ficam marejados de lágrimas quando diz que perdeu dois filhos. A dor é imensa e ficará para sempre. Quando os filhos partem antes da mãe deixam um rasto de sofrimento, com um peso impossível de traduzir em palavras. Mesmo assim, não ficou amarga e nunca deixou que o sofrimento lhe tirasse a força. Conformou-se, com aquela aceitação que só as pessoas fortes conseguem ter e a sabedoria de quem aprendeu que a vida é feita de caminhos inesperados, de alegrias e dores entrelaçadas. É aquela capacidade antiga de compreender que a vida nem sempre se explica, apenas se vive. E Matilde viveu e vive. Sempre para a frente, sempre com coragem.
A surpresa dos 100 anos
Quando lhe perguntam se esperava chegar aos cem anos, ri. “Nunca pensei. Sou a única da minha família. A minha vida não foi fácil, mas o meu espírito, a minha maneira de ser, bem-disposta e sempre a andar para a frente, ajudou-me muito. Olhe, se calhar a chegar aos 100 anos”. Por isso, agora que chegou ao centenário de uma vida que não foi leve, isso parece-lhe “uma surpresa de Deus”. E talvez seja. Afinal, a fé acompanhou-a desde Salreu até Toronto, desde os campos de arroz até às noites de apanha da minhoca. A fé e o seu espírito alegre, resiliente, sempre virado para a frente.
A história de Matilde Onofre, é a história de uma mulher simples que carregou uma família inteira às costas, que atravessou o Atlântico com coragem, que construiu uma nova vida com as mãos, e que celebrou, no dia 22 de novembro de 2025, um século de existência rodeada de amor.
Em cada frase sua há a sabedoria da terra; em cada silêncio, a dureza do trabalho, em cada sorriso, a gratidão por tudo o que viveu, mesmo o que doeu.
Cem anos depois do seu nascimento, D. Matilde tem uma pele extraordinária, mas jura que nunca fez nada de especial – “água e sabão, toda a vida”, diz, com uma pequena gargalhada. Esta mulher continua a ser aquilo que sempre foi: inteira, forte, luminosa, que soube transformar uma vida dura numa vida plena. A sua história é a história de milhares de mulheres imigrantes portuguesas que chegaram ao Canadá na década de 1960. Mas também é única, profundamente única, porque ninguém vive o caminho exatamente como ela o viveu.
Aos 100 anos, Matilde não só celebrou uma vida, como celebrou todas as vidas que dela nasceram.
E esse é, talvez, o maior milagre da existência.
Entrevista: Madalena Balça | Fotos: Cindy da Ponte / Família Onofre














