A história de vida de Tino Dos Santos, começou há 57 anos. Nasceu em Portugal, mais concretamente em Fermelã, no concelho de Estarreja, Aveiro, e partiu cedo demais para compreender totalmente o que deixava para trás, mas com idade suficiente para nunca esquecer de onde vinha.
Entre Fermelã e Toronto não houve apenas uma mudança de geografia, mas um processo contínuo de construção: de identidade, de pertença e de propósito. A infância, marcada pelos afetos profundos dos avós e pela ausência de um pai que o esperava do outro lado do Atlântico, cedo deu lugar a uma realidade exigente, onde cada conquista teve de ser aprendida, palavra a palavra, gesto a gesto.
Num país novo, com uma língua desconhecida e códigos por decifrar, Tino encontrou no desporto uma linguagem universal. Foi no rigor do treino, na disciplina das artes marciais e na persistência diária que transformou fragilidade em força, dúvida em ambição, e acabou por traçar um percurso de excelência no Taekwondo, representando o Canadá ao mais alto nível.
Mas a sua história não se resume às vitórias. É também feita das perguntas que muitos imigrantes carregam: quem somos quando pertencemos a dois lugares? Como se constrói uma identidade entre raízes e caminhos novos? Ao longo dos anos, Tino foi encontrando respostas, não numa escolha entre ser português ou canadiano, mas na aceitação de ser ambos.
Hoje, entre a família que construiu, as memórias que guarda e os regressos que antecipa, vive esse equilíbrio raro: o de quem aprendeu que casa pode ser mais do que um lugar, pode ser tudo aquilo que levamos connosco.
De Fermelã a Toronto
Entre o verde húmido dos campos de Fermelã e o cinzento apressado das ruas de Toronto existe mais do que um oceano, existe um salto de vida, desses que se dão sem rede, guiados apenas pela esperança e por um nome chamado futuro.
Para um rapaz de 11 anos, o mundo ainda é feito de imagens simples: a neve que se imagina branca e perfeita, as cidades que brilham nas histórias dos outros, a promessa de uma vida maior do que aquela que se conhece. Mas há também raízes, invisíveis, profundas, feitas de tardes depois da escola, de viagens no banco de trás de um táxi conduzido por um avô, de silêncios cúmplices que valem mais do que palavras.
Sair com 11 anos de Fermelã, no concelho de Estarreja, para vir para uma cidade como Toronto… teve algum impacto, mas eu vinha entusiasmado. Primeiro porque não tinha assim tantos amigos. Para mim foi mais a aventura, a ideia de vir para o Canadá, tudo aquilo que imaginávamos sobre o país. Era muito novo, claro que os amigos eram importantes, mas o mais forte era essa ideia de um novo país, uma nova vida numa grande cidade.
Mas, mais importante ainda, era o facto de vir viver com o meu pai. Eu nunca tinha vivido com ele. Quando ele emigrou, eu tinha um ano e meio ou dois anos, por isso eu nem me lembrava de ter vivido com ele. Na realidade, nunca tinha vivido com o meu pai, e queria muito isso, estar com ele todos os dias. Isso era mais importante do que qualquer outra coisa e já era razão suficiente para estar bem entusiasmado.
A única coisa que realmente me custou foi deixar os meus avós. Era muito próximo deles, especialmente do meu avô. O meu avô, o pai da minha mãe, chamava-se Agostinho Moutinho, e eu herdei o nome dele. Era taxista e passava muito tempo connosco. Eu e o meu irmão Francisco, depois da escola quando o meu avô tinha algum serviço para fazer, nós íamos muitas vezes com ele no carro. Eu era muito ligado aos meus avós, porque, na prática, foram como pais para mim.
A chegada
A chegada nem sempre corresponde ao sonho e, por vezes, é aí que a verdadeira história começa. No coração do inverno canadiano, entre malas carregadas de expectativa e um frio que se entranha nos ossos, a realidade revela-se menos perfeita do que as imagens guardadas na imaginação. A neve, antes símbolo de beleza intocada, surge manchada pelo quotidiano da cidade, como que a dizer que a vida ali seria feita de contrastes.
Mas são também esses primeiros instantes, entre o espanto, a desilusão e pequenos episódios quase caricatos, que ficam gravados para sempre. Momentos que, com o tempo, se transformam em memória viva, contada em família, entre risos e saudade.
Quando cheguei a Toronto tinha 11 anos, com a minha mãe e os meus 3 irmãos (eu sou o mais novo dos 4). Lembro-me bem desse dia. Nós chegámos no dia 24 de janeiro de 1980, mesmo no meio do inverno. E nós tínhamos aquela imagem do Canadá com neve, tudo muito bonito, muito branquinho. Eu vinha com essa ideia da neve bonita nas árvores, tudo perfeito. Mas quando chegámos… sabes como é, quando a neve cai é bonito, mas depois fica tudo sujo. Lembro-me de ir do aeroporto para casa, em Toronto, e ficar admirado e até desiludido por ver a neve tão preta e tão suja. Pensei logo: isto é muito diferente do que eu imaginava.
Outra coisa de que me lembro bem foi que, no aeroporto, eles perguntaram se trazíamos alguma coisa, de bebidas ou outra coisa de comidas que não eram permitidas. Ora, nós trazíamos um garrafão de aguardente, daqueles de três litros e o meu irmão Francisco pôs o garrafão em cima do balcão. E, claro, o meu pai teve logo de pagar 50 dólares, o que era muito nesse tempo. Essas duas coisas ficaram-me na memória. Hoje em dia são histórias que recordamos em família e dão para rir.
A entrada na escola e o desafio do inglês
Entrar numa nova escola é sempre um começo, mas fazê-lo sem entender a língua é quase como tentar encontrar o caminho no escuro. Entre corredores desconhecidos e vozes que soam distantes, cada gesto ganha significado, cada olhar pesa mais do que as palavras que faltam.
É nesse silêncio forçado que nasce também uma força inesperada. O desconforto, a estranheza e até a humilhação dos primeiros dias transformam-se, pouco a pouco, em combustível. Porque há momentos que marcam, não apenas pela dificuldade, mas pela promessa silenciosa que se faz a si próprio: a de não ficar para trás, a de provar o seu valor, a de transformar fragilidade em determinação.
Quando cheguei, só sabia dizer “thank you” e “I don’t speak English”. Era só isso. Mas entrei logo na escola. Chegámos numa quinta-feira e comecei na escola na segunda-feira seguinte. Primeiro fomos à escola com um senhor português da comunidade que ajudava os imigrantes, tratámos dos papéis e depois ele foi-se embora. A escola era numa zona portuguesa, na College e Grace Street, que tinha o programa ESL (English Second Language) e o Principal chamou uma professora portuguesa para me ajudar.
Lembro-me que, antes de me levar para a sala que iria ser a minha, ela entrou na sala dela para ver como estavam os alunos. Aquilo era um caos, os miúdos em cima das cadeiras, uma barulheira. O meu primo tinha-me dito que aqui no Canadá não havia homework e as professoras não podiam bater e eu, para além de ter ficado admirado, achei que essa era uma boa notícia. Foi então que eu vi a seguinte cena: ela chamou um dos alunos, puxou-lhe a orelha e deu-lhe uma chapada. Eu fiquei chocado, porque não tinha nada a ver com o que eu tinha ouvido dizer sobre as escolas no Canadá.
Depois, na minha sala, no meu primeiro dia de aulas em Toronto, os meus colegas colocaram-me um livro à frente. Eu não percebia o que diziam, mas percebi que era para eu ler. Comecei a ler, mas não sabia pronunciar o inglês e, por isso, li tudo mal. E eles começaram a rir-se muito. Fiquei muito mal com aquilo, afinal eles estavam a gozar-me. Mas lembro-me de pensar: “Um dia vou mostrar-lhes algo especial. Vou mostrar-lhes que vou conseguir e vou ser melhor aluno do que eles.”
A vida de desportista de alta competição
Há caminhos que começam quase por acaso, um impulso, uma curiosidade, ou até uma necessidade simples, como aprender a defender-se. Mas, por vezes, é nesses começos improváveis que se revela uma vocação. Entre quedas e repetições, entre gestos ainda inseguros e uma disciplina que se vai entranhando no corpo, nasce algo maior do que o próprio desporto.
O que começa como defesa transforma-se em dedicação; o treino em rotina; a rotina em propósito. E, pouco a pouco, constrói-se um percurso onde o talento dá lugar à persistência, e a vontade de ser melhor amanhã supera qualquer limitação de hoje. É assim que se forja um atleta, não apenas em vitórias, mas na forma como nunca deixa de evoluir.
Foi logo no verão de 1980, poucos meses depois de chegar que comecei a aproximar-me do desporto e em particular das artes marciais. Um primo meu, o Nelson, já treinava Taekwondo no YMCA, na St. Clair. Quando soube disso, fiquei logo interessado. Para ser sincero, o meu irmão Francisco batia-me muitas vezes, e eu queria aprender a defender-me (risos).
Comecei a treinar uma vez por semana, ao sábado. Depois, em setembro, abriu uma escola de Taekwondo ao lado, com um mestre que tinha vindo da Coreia. Eu e o meu primo inscrevemo-nos e passámos a treinar todos os dias. Comecei com o cinto branco e fui evoluindo. Foi uma paixão imediata. Acho que o que me fascinou mais, no início, era mais a parte da disciplina que as artes marciais ensinam, depois passou a ser também o lado competitivo, quando começou a aproximar-se a possibilidade de o Taekwondo integrar os grupo de desportos dos Jogos Olímpicos.
Eu não era uma pessoa com talento natural. Tudo o que consegui foi com muita disciplina. Nunca faltava a treinos, queria sempre aprender técnicas difíceis, movimentos difíceis. Era pequeno para a minha idade, mas era resistente. Acho que muito disso vem de crescer com os meus irmãos mais velhos, especialmente o Francisco, que me tornou mais duro.
Tinha muita vontade de aprender e nunca estava satisfeito com o nível em que estava. Queria sempre melhorar. Por isso, acho que essa paixão, essa resiliência, essa atitude de querer aprender constantemente, de nunca me contentar com o meu desempenho de hoje. Tinha mais a ver com o quanto posso ser melhor amanhã do que aquilo que sou hoje. Acho que foi isso que me fez seguir em frente e que acabou por me levar ao sucesso que tive como atleta, acabando por ser bem-sucedido. Acho que foi essa combinação de disciplina, resiliência e vontade de evoluir que me levou ao sucesso. Comecei a competir em 1986, com 17 anos. Fui campeão do Canadá várias vezes até 1995. Ganhei medalha de bronze no Campeonato do Mundo e duas medalhas de ouro no Campeonato Pan-Americano, em 1988 e 1990. Em 1992, fiquei em segundo lugar. Em 95, depois de parar, comecei a treinar. Primeiro a nível provincial e nacional, e depois, a partir de 2001, fui treinador da seleção nacional, juntamente com a Jamie (minha esposa).
Português ou canadiano – a procura da identidade
Entre duas línguas, dois mundos e duas formas de estar, cresce uma identidade que não cabe em definições simples. Há um momento em que já não se é apenas de onde se nasceu, mas também ainda não se pertence totalmente ao lugar onde se vive. É um território invisível, feito de dúvidas, contrastes e pequenas contradições do quotidiano.
Ser de dois lados é, muitas vezes, não ser completamente de nenhum, até perceber que essa mistura é, afinal, uma riqueza. Que a identidade não é uma escolha única, mas uma construção feita de memórias, descobertas e reconciliações. E que, no fim, pertencer pode significar precisamente isso: carregar mais do que um lugar dentro de si.
Já em Toronto, durante toda minha juventude, quando chegava a casa, tinha os meus pais que falavam português, comia comida portuguesa, ou seja, como muita gente que vive aqui, tinha duas realidades na minha vida – saía de casa, assumia a minha pele de canadiano e em casa era português. Durante muito tempo, eu dizia que era canadiano. Não era de vergonha de ser português. Mas eu queria ser canadiano. E pronto, comecei a aprender os costumes daqui, as coisas do país, os desportos do país. Quando cá cheguei, no primeiro ano, joguei futebol porque era o desporto que eu conhecia antes de vir para cá, mas depois nunca mais joguei futebol. Mas pronto, eu comecei a habituar-me aqui às coisas dos canadianos. E eu tinha a ideia que para ser canadiano tinha que ser assim. Tinha que falar com as pessoas que não eram portuguesas, também porque não tinha assim muitos amigos portugueses, eles eram de outras raças. Claro que em casa eu falava português, comia comida portuguesa e isso tudo, mas fora de casa, não queria ser português. Quando comecei a ficar mais velho, comecei a notar que as pessoas não me aceitavam como canadiano – para eles eu não era canadiano, eu era português. O meu nome é um nome português, a minha aparência física é portuguesa. Ou seja eu não era visto como canadiano, mas também não me sentia totalmente português, porque saí muito novo de Portugal e não conhecia bem a nossa cultura e a nossa história. Foi um período difícil, de busca de identidade, foi realmente difícil para mim. Foi muito, muito difícil. Mas depois, à medida que fui crescendo, percebi duas coisas. A primeira é que o que se passava comigo, passava-se com outras pessoas como eu, outros imigrantes, na realidade é isso que significa ser canadiano. É o Canadá, esta bela paisagem, um mosaico de tantas culturas diferentes. É isso que faz do Canadá o Canadá. Certo. Eu sou apenas um imigrante, tal como muitas pessoas foram imigrantes há anos, há várias gerações. E agora os filhos delas são da segunda ou terceira geração. Certo. E depois… Eu vim para cá em 1980 e fui a Portugal em 82 e 84, e depois nunca mais fui a Portugal durante uns 14 anos, foi muito tempo. Mas depois comecei a interessar-me por Portugal, pela minha cultura, pela minha história. Então, comecei a aprender por conta própria sobre a minha cultura, a história de Portugal. Eu ia à biblioteca e lia. Fiz um pouco de pesquisa porque queria saber mais sobre a minha cultura, sobre o que significa ser português. Porque, apesar de tudo, sempre que via algo relacionado com Portugal, como, por exemplo, a seleção portuguesa de futebol ou algo do género, sentia um enorme orgulho, mas não sabia porquê.
Hoje vejo Portugal de forma diferente. Portugal mudou muito. Às vezes pergunto-me porque é que os meus pais vieram, porque o país tem tanto para oferecer. Mas também percebo que viver lá é diferente de visitar. Valorizo muito o sacrifício dos meus pais e tenho um grande orgulho na nossa cultura, na nossa história e, claro, na nossa comida, que por sinal adoro, especialmente peixe e marisco. Quando vou a Portugal, quase não como carne.
A família multicultural
Às vezes, o que une duas pessoas não está na língua que falam nem nos sabores que trazem da infância, mas nos valores que carregam sem dar por isso. Entre culturas diferentes, descobrem-se afinidades inesperadas, quase silenciosas, que constroem pontes onde antes só havia distância.
É nesse encontro de mundos que nasce uma família feita de equilíbrio: onde as diferenças convivem com naturalidade e o essencial, o respeito, o amor e a união, fala sempre mais alto.
A minha esposa, a Jamie, é de origem chinesa. Sabes que a minha mãe chegou a dizer que talvez fosse melhor casar com uma portuguesa, mas eu expliquei que os valores da cultura chinesa são muito semelhantes aos da cultura portuguesa: o respeito pelos mais velhos, a relação entre pais e filhos, a importância da família, a união familiar, tudo são valores que partilhamos. A língua é muito diferente, claro, a comida também é muito diferente, mas os valores realmente importantes esses estão presentes em ambas as culturas.
Antes de começarmos a namorar, já falávamos sobre como gostaríamos de educar os nossos filhos, com base nesses valores comuns.
E o futuro? Passará por Portugal?
O futuro nem sempre é um regresso definitivo, às vezes é um caminho de ida e volta. Entre o lugar onde se construiu a vida e aquele onde permanecem as raízes, há um equilíbrio possível. Não de escolha, mas de pertença partilhada, onde cada regresso sabe um pouco a casa.
Não imagino viver permanentemente em Portugal. Não faz sentido para nós. Temos 3 filhos, dois vivem aqui no Canadá e outro vive nos Estados Unidos, mas quando me reformar, e eu vou reformar-me muito em breve, gostava de passar três ou quatro meses por ano lá. Pela comida, pelo clima, pela segurança, pelas praias e pelas pessoas. A Jamie adora Portugal. Para nós é quase como uma segunda casa.
Entrevista: Madalena Balça | Fotos: Família Dos Santos





















