Terras de pão I
Costumes & TradiçõesPortugal

Terras de pão I

revista amar - terras de pão
Créditos © Ana Fernanda

 

O cultivo de cereais é, para quase toda a humanidade, um meio de subsistência. As gramíneas apuradas e multiplicadas pelo homem durante séculos, tornaram estas sementes, grãos essenciais à nutrição humana. Como principais fontes de hidratos de carbono, temos o trigo, a cevada, a aveia, o centeio, o arroz, o milho e o sogro. Estes cereais fornecem-nos energia, mantendo-nos vivos e dinâmicos.

Com experiências feitas desde tempos imemoriais, o homem foi descobrindo que, se enterrasse algumas sementes, em condições adequadas, o cereal cresceria onde se quisesse. Nascia, assim, a agricultura e, com ela a civilização, graças à capacidade do homem cultivar e conservar os alimentos que ele próprio tinha semeado, segundo técnicas seguras.

A agricultura e a criação de gado permitiram ao Homem nómada, assentar arraiais, ou seja, tornar-se sedentário. Por sorte, as gramíneas estão bastante espalhadas pelo planeta: crescem em quase todas as latitudes e, por isso mesmo, o Homem conseguiu encontrar e adaptar determinadas gramíneas às caraterísticas de cada região.

 

revista amar - terras de pão
Créditos © Carlos Cruchinho

 

A preservação da diversidade das sementes passa na atualidade pelos bancos de sementes; a diversidade genética fica a salvo de uma eventual catástrofe planetária ou das sementes geneticamente modificadas. Estas estruturas armazenam mais de um milhão de espécies e variedades de sementes. Na Noruega, mais propriamente nas Ilhas Svalbard, as sementes são mantidas a uma temperatura constante de -18 C e a 150 metros de profundidade. Portugal participa neste projeto de preservação da diversidade, contribuindo com 100 kg de milho, duma colheita de 1970, para a Arca de Noé das sementes. O nosso país é responsável pelas reservas mediterrânicas de milho. Este banco de sementes alberga mais de 900 mil amostras de sementes, com origem em todo o mundo. A partir deste banco norueguês foram reabastecidos os bancos de Marrocos e do Líbano, devido à destruição do banco central na Síria, em consequência da guerra civil.

Quando as hostes romanas quiseram conquistar a Grã-Bretanha, esperavam pela época das colheitas, para que os soldados se pudessem espalhar pelos campos, roubassem o trigo indígena, o levassem de volta para o acampamento e fizessem pão dele.

 

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Créditos © Carlos Cruchinho

 

História do Pão – Um alimento indispensável

O pão é um dos alimentos mais antigos e indispensáveis que acompanha a Humanidade. A cozedura de pão remonta a 6000 anos antes de Cristo. O homem começou a cozer pão no antigo Egito e os egípcios foram o primeiro povo a usar fornos de barro para cozer pão. Especialistas no cultivo de trigo faziam negócio com os gregos, vendendo-o aos helénicos, que, entretanto, se tornaram peritos no fabrico de pão. Os romanos, por sua vez, aprenderam com os gregos e apreciaram tanto o ofício que no ano 100 a.C., havia já 258 padeiros na cidade de Roma. A descoberta do fermento é igualmente atribuída aos egípcios, por uma obra do acaso. Um forneiro egípcio deixou um pouco de massa crua fora do fogo, quando regressou para retirar a fornada de pão, reparou que esta tinha fermentado.

Como alimento indispensável para o corpo e alma, de vida e de trabalho, o pão faz parte da cultura de muitos povos, tendo um simbolismo importante em muitas religiões.

 

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Créditos © Carlos Cruchinho

 

Como alimento de suporte de grande parte das dietas alimentares de diferentes civilizações, o pão simboliza tanto o alimento essencial da humanidade, como o elemento de comunicação com o divino; a sua função sagrada é importante no quotidiano das pessoas. Elemento decisivo como alimento do corpo e da espiritualidade das comunidades. Na religião cristã constitui o corpo de Cristo (Belém significa casa de pão e nela nasceu Jesus).

Até ao final do século XX, o pão era normalmente produzido em casa, em fornos de lenha e em quantidade suficiente para uma semana.

Para Amorim Girão (1958), “o regime alimentar dos portugueses apresentava vincado carácter mediterrânico, só o extremo noroeste se aproxima um pouco do tipo europeu setentrional, e o pão – de trigo, de milho e de centeio – constituía a base da alimentação em todo o Pais.”

O pão em Portugal é feito com três cereais: o milho, o centeio e o trigo. No seu Atlas de Portugal, Amorim Girão (1958) informa-nos que o milho se adapta melhor a terras pluviosas, mas está também presente, se bem com produções mais reduzidas, no sul, ao longo da costa e no Algarve.

 

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Créditos © Carlos Cruchinho

 

Do milho verde ao milho ao sol

O mês de março apresenta-se como o ditado “março marçagão, manhã de inverno, tarde de verão”. A viagem para o trabalho serpenteia pelos campos lavrados de fresco. O lavrador semeia o milho pacientemente, rego após rego. No final do inverno e início da primavera, os camponeses amanham as terras para dar início às sementeiras de milho, quase sempre em parcelas de minifúndio que estiveram submetidas, durante um largo período, à ação dos agentes climáticos, nomeadamente da chuva. O cultivo do milho exige uma temperatura ideal do solo, bem como uma humidade constante, pois este é um cereal muito exigente no seu regadio. A sua verdura faz-me trautear a cantiga “O milho verde” imortalizada pelo cantautor José Afonso:

“Milho verde, milho verde
Ai, milho verde, milho verde
Ai, milho verde maçaroca.

À sombra do milho verde
Ai, à sombra do milho verde
Ai, namorei uma cachopa”

 

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Créditos © Carlos Cruchinho

 

Antevejo o transporte dos cestos cheios de espigas de milho para uma desfolhada, numa eira repleta de pessoas. Júlio Dinis descreveu assim a desfolhada na sua obra, As pupilas do senhor reitor: “Um monte enorme de espigas ocupava o meio da eira. Abertas de par em par as portas do cabanal aguardavam as amplas canastras para onde se iam lançando as espigas esfolhadas. Sentados em círculo, à volta daquela alta pirâmide, trabalhavam azafamados, parentes, criados, vizinhos, amigos e conhecidos, que sempre afluem aos serões desta natureza, ainda que não convidados. Não havia lugares de distinção aí. Cada qual se sentava ao acaso, ou, quando muito, conforme as suas secretas preferências.” Durante o século XIX as desfolhadas eram ocasiões de convívio entre os rapazes e raparigas casadoiras. Ao serão, à luz mortiça dos lampiões, desembaraçavam-se as folhas amarelecidas das espigas de milho, enquanto se trocavam sussurradas, as primeiras confidências amorosas.

A viagem continua entre curvas e contracurvas ladeadas de campos de restolho dos milheirais ceifados por camponesas curvadas. Alcandorados como num pedestal, os espigueiros aguardam serenamente as maçarocas ainda húmidas, para uma derradeira secagem no interior das suas paredes ripadas. Como na obra de Júlio Dinis, As pupilas do senhor reitor, que passo a citar: “Ali por fins de agosto era um tal de entrar de carros de milho pelas portas do quinteiro dentro! S. Miguel mais farto poucos se gabavam de ter. Que abundância por aquela casa! Ninguém era pobre com ele; louvado Deus!”

Um quinteiro abarrotar de canastras cheias de espigas prontas para serem estendidas ao sol inclemente, a camponesa de chapéu de palha alinha cada maçaroca nas mantas de farrapos multicores, aguardando que as espigas fiquem no ponto para a debulha. O pintor José Malhoa imortalizou a cena na sua obra “Milho ao Sol”.

 

revista amar - terras de pão
Créditos © Carlos Cruchinho

 

Depois da malha do milho, feita na eira por pares de homens, colocados frente a frente, ou lado a lado, munidos de manguais com os quais malhavam o grão até o libertarem do casulo, espalhava-se o milho a secar na eira, exposto ao sol, até poder ser erguido ao vento com a ajuda de crivos ou cestos, sacudidos para libertar do grão a moinha, que servia para encher as almofadas ou travesseiras.

Num dos últimos artigos na Revista Amar fiz referência ao conto de natal de Miguel Torga, onde o protagonista Garrinchas ansiava chegar à manjedoira nativa, para como desamparado da sorte aquecer-se no forno comunitário e inalar o cheiro da última cozedura de pão. Longe vão os tempos da cozedura do pão no forno comunitário. Cada um à vez, aquecia o forno com a lenha recolhida pelos habitantes da aldeia. Fornada a fornada, as famílias enchiam os açafates de pão. As boroas de milho, as triga-milhas, as sêmeas seguiam para o arcaz destinado ao pão, alimento indispensável na dieta das famílias mais numerosas.

Mas para chegar a esta etapa, outras antecedem esta derradeira confeção deste alimento universal.

Carlos Cruchinho

Licenciado no ensino da História e Ciências Sociais

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