Arte a céu aberto
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Arte a céu aberto

arte a ceu aberto - manuelamarujo - Foto 1 Mural Franklin Cascaes
Mural de Franklin Cascaes da autoria de Thiago Vivaldi
Créditos © Manuela Marujo

 

Lisboa, São Paulo, Nova Iorque – onde a arte de grafitti teve início e se popularizou nos anos 1970 – e outras cidades do mundo apresentam uma mostra preciosa da criatividade de arte urbana. Alguns artistas deixam anónimas as obras, outros usam nomes fictícios mas, cada vez mais, há artistas plásticos reconhecidos que, dessa forma, partilham o seu talento com o mundo.

Em Florianópolis, a cidade capital do Estado de Santa Catarina, localizada na Ilha com o mesmo nome, tenho observado, nos últimos cinco anos, o aparecimento de painéis gigantes de grafitos no centro histórico da cidade. O primeiro painel com mais de 30 metros foi pintado na parede do edifício Atlas, na Rua Tenente Silveira. Ilustra a figura incontornável de Franklin Cascaes (1908-1983), desenhador, escultor, etnólogo e o maior divulgador da cultura popular, crenças e tradições dos açorianos na ilha e no litoral catarinense. É da autoria do artista Thiago Valdi que, ao criar essa pintura mural, nos leva a conhecer não só Franklin Cascaes mas também a história de Santa Catarina, a “Ilha de Magia”, como ele a popularizou.

Próximo, na Rua Tenente Silveira, encontra-se um mural de Valdi, Gugie e Tuane Ferreira que presta homenagem a Antonieta Barros (1901-1952), professora, jornalista, escritora e a primeira mulher negra a ser eleita deputada estadual no Brasil. Esta ativista lutou pelo direito de todos à educação, pelo reconhecimento e valorização da cultura negra e pela igualdade de género. Integrada na pintura está uma mandala que enaltece a beleza das rendas de bilros, criadas por mulheres e homens de mãos fadadas, demonstrando assim a tradição centenária dessa arte trazida da Europa e que continua a ser apreciada e valorizada como património da Ilha.

Caminhando em direção à importante Praça XV de Novembro, é difícil não nos deixarmos impressionar com o mural “Cisne Negro”, dedicado ao poeta Cruz e Sousa (1861-1898) da autoria de Rodrigo Rizo. Está pintado num paredão do Edifício João Moritz, ao lado dum antigo casarão de meados do século XVIII, que serviu de residência e administração de muitos governos. Hoje, reconstruído, alberga o Palácio-Museu Histórico Cruz e Sousa.

 

 

Considerado o mestre do simbolismo, o poeta era filho de escravos libertos. Defendeu o abolicionismo na imprensa da época, lutou contra o racismo e discriminação e é considerado um dos grandes poetas brasileiros.
Em 2020, Rodrigo Rizo, assistido por Tuane Ferreira e Rodrigo “Pasmo” completa, ao cimo da Rua Felipe Schmidt um mural em homenagem à fauna e flora da ilha intitulado “Natureza no Desterro”. A figura feminina personifica a mãe natureza e nas ilustrações observamos exemplos de animais locais como a lontra, a tainha e a baleia branca.

Um dos painéis mais recentes, inaugurado a 7 de dezembro de 2021, comemora o centenário do nascimento de Ernesto Meyer Filho, artista plástico da vanguarda do movimento modernista. Com o título “O Baile Místico de Meyer Filho”, o mural de 33 metros de altura está igualmente na movimentada Felipe Schmidt e foi criado por Rodrigo Rizo, Tuane Ferreira e Vitor Moraes.

Graças ao Street Art Tour, movimento de reconhecimento e valorização da arte urbana patrocinado pelo município e pela Fundação Franklin Cascaes, os artistas grafiteiros têm beneficiado de fundos necessários para as suas pinturas. Outras iniciativas tais como Floripa Conecta – um projeto conjunto de economia criativa, tecnologia e turismo, oficialmente lançado em Lisboa, na Web summit de 2020, estão a contribuir para valorizar a arte urbana.

 

 

Desde que pela primeira vez visitei “Floripa” (nome carinhoso dado pelos catarinenses à cidade), a arte a céu aberto sempre me chamou a atenção. Viadutos, muros, parques de estacionamento e outras superfícies tornam-se mais apelativas pelo colorido de figuras humanas, animais e uma diversidade de seres fantásticos.

A arte reflete a essência do ser humano, permitindo-lhe expressar os seus sentimentos, pensamentos e convicções. Graças aos trabalhos dos grafiteiros, o nosso imaginário amplia-se e tornamo-nos mais sensíveis quer à fantasia, quer à realidade, alcançando a nossa vida um significado superior.

Manuela Marujo

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