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Estou convencido de que os cabo-verdianos têm o envelhecimento escangalhado. Os velhos da minha idade parecem moços. Nem sei o que pensar. Ando às aranhas sem entender nada. Há quem diga que é do Sol, há quem diga que o vento estica, a mim parece que dançar o funaná anda a criar juventude neste arquipélago e ninguém o esconde mas também ninguém me avisou antes.

Chego a Santiago com um verso de Arsélio Martins na cabeça: “Ao oitavo dia Deus procurou casa entre os homens”. Deve ser a coisa mais bonita, mais terna, que se pode dizer de Deus. Que procure casa entre as pessoas que acabou de criar é o elogio límpido da Humanidade. Penso nisto a chegar a Cabo Verde porque sinto que quem é daqui é de espírito doce, o feitio amável e algo esperador que incendeia apenas quando a música começa. Se houver música, um nico que seja vinda de alguma janela, os corpos ficam numa perturbação boa, uma reacção inevitável como se ao vento ou em queda pelas areias íngremes. E alguma coisa me seduziu para pensar que os cabo-verdianos são a gente com quem Deus haveria de querer estar. Olho para as casas desconfiado. Entre os vizinhos pode ser que habite a mais importante presença.

Sou intensificado pelas ilhas. Não lhes consigo ficar indiferente. Julgo que definem a lonjura pela contingência da circunscrição, e a lonjura importa-me muito. Ir ao longe, no sentido de auscultar certo desconhecido, é um complemento fundamental do meu espírito. Gosto da ideia de, ainda que por um instante, refazer toda a minha humanidade numa teia de relações novas, primeiras outra vez, sem memórias comuns. Decido minha identidade, em parte, e é potencial um futuro, um destino, completamente distinto que haveria de ser absolutamente educado por mim. É como o extremo jogo literário.

A senhora da biblioteca do novíssimo edifício do Banco de Cabo Verde pede que volte mais vezes. A imensa casa desenhada por Álvaro Siza é um palácio de calma. Sinto que estou dentro de um derrame de leite. Se ficasse aqui a viver, queria uma destas varandas para esperar navios e amores, poemas e as chuvas que caem no calor.
Na padaria Pão Quente, mesmo ao lado, uma menina de três anos de idade dança sozinha enquanto a mãe espera pagar um bolo. Creio que é a Élida a cantar na rádio. Tenho quase a certeza. A menina dança e não quer sair da padaria. O pão já não é preciso. Dançar é preciso.

Eu, que sou incapaz de coordenar movimentos com beleza e harmonia, sou dos que reage à música a abanar pouquinho como se me desse uma pequena tontura. É um talento do foro da desgraça. Deve ser por isso que estou assim de velho e que comi o pão antes de dar conta que muito mais gente entra na padaria e começa logo a dançar. Há uma ameaça de festa em cada pessoa. Eu não quero sair daqui. É quase impossível que isto não faça a festa começar.

Valter Hugo Mãe

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