São Paulo 100 anos de Modernismo
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São Paulo 100 anos de Modernismo

manuela marujo - reviusta amar - sao paulo -
Bairro da Bela Vista, Rosewood Hotel Créditos © Manuela Marujo

 

Um século depois da realização da memorável Semana de Arte Moderna, inaugurada no Teatro Municipal de São Paulo a 13 fevereiro de 1922, a cidade propõe-se festejar, durante todo o ano de 2022, os 100 anos de Modernismo, realizando eventos em espaços diversos da grande metrópole, sob formas artísticas variadas.

Tive a oportunidade de passar três dias em São Paulo, no passado mês de fevereiro, e partilhar dos festejos de orgulho na cultura, valorização de identidade brasileira, liberdade artística na seleção de temas nacionalistas nas obras de arte e na celebração da língua.

Quer na rua, com grafiteiros estimulados a colorir murais em viadutos, paredes e edifícios, quer nos espaços privados dos museus e galerias de arte, destaco algumas das obras/exposições que me ajudaram a compreender um pouco melhor os paradoxos desse Brasil do nosso imaginário, cuja realidade a maioria conhece mal.

Um mural gigantesco na Avenida Paulista retrata Carolina de Jesus, a autora de “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. O nome desta carismática brasileira não me era desconhecido. No entanto, apreciar uma exposição sobre a sua história de vida no conceituado Instituto Moreira Salles (inaugurado em 2017) deu-me uma outra perspetiva e reconhecimento do impacto da sua obra, a nível nacional e internacional. O Instituto apresenta, paralelamente, uma outra mostra sobre a obra de Clarice Lispector – uma das mais reconhecidas escritoras brasileiras. Ver Clarice Lispector e Carolina de Jesus, duas escritoras com percursos e perfis diametralmente opostos, no mesmo espaço cultural, desconcerta e obriga a uma reflexão séria sobre o passado e a atualidade do país.

 

 

No Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) localizado no coração histórico da cidade, as múltiplas salas dos cinco andares desse belo edifício de fachada neo-clássica apresentam uma mostra de arte contemporânea intitulada “Brasilidade – Pós-Modernismo 2022” em que se destacam relevantes obras de arte de 51 artistas. São apresentadas pinturas, fotografias, desenhos, esculturas e instalações de artistas de diversas gerações. Entre os consagrados estão Óscar Niemeyer, Adriana Varejão e Ernesto Neto, mas também jovens cujo reconhecido talento os levou àquele espaço privilegiado. Admirei em particular os trabalhos dos artistas Gê Viana, Nelson Leirner e Beatriz Milhazes pela irreverência, cores cativantes e denúncia da herança colonial.

Não se pode ir a São Paulo sem visitar a Pinacoteca – um museu estadual, de entrada gratuita e o mais antigo da cidade (1897). Entramos na Pinacoteca, mesmo em frente à conhecida Estação da Luz, cujo edifício aloja o Museu da Língua Portuguesa, para admirar obras dos mais consagrados artistas da Semana de 1922, tais como Cândido Portinari, Anita Mafaltti e Tarsila do Amaral, mas igualmente para se poder conhecer artistas estrangeiros como Miró, Rodin e tantos outros.

 

 

Desde 2018, a imensa Avenida Paulista sofre grande transformação, todos os domingos. Livre de transportes, essa grande artéria da cidade convida o público a caminhar e dá-lhe a possibilidade de admirar a arquitetura dos antigos casarões e palacetes, testemunhos de outra época, as igrejas de portas abertas, os edifícios modernos de arquitetos consagrados e os parques frondosos no meio dos arranha-céus. Visitei a Casa das Rosas (1928), passeei no frondoso Parque Siqueira Campos e admirei as coleções do Novo Centro Cultural da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (FIEST), inaugurado em 2017. É fascinante descobrir, sem qualquer custo para o público, as salas de exposições. Naquele espaço de qualidade superior, aprende-se sobre os povos indígenas, flora, fauna, colonização, imigração dos vários povos e sobre o Brasil atual. É preciso escolher o que se pode admirar numa só visita ou então regressar mais vezes. Vi a exposição dedicada ao consagrado artista Tunga, admirei desenhos de flores e animais da floresta amazónica e os originais do pintor Jean-Baptiste Debret, um dos primeiros estrangeiros que retratou os índios do Brasil.

A minha estadia em São Paulo não seria completa se não tivesse ido ao teatro. Regina Braga, uma conceituada atriz brasileira, apresentava no Teatro Unimed, a última representação da peça intitulada “São Paulo”. É uma ode à cidade, num monólogo de interpretação de uma colagem de textos, que conta a história desde a fundação da cidade em 1554, até aos anos setenta do século XX, com acompanhamento musical de excelência.

A nação brasileira tem uma identidade de que orgulhosamente está cada vez mais consciente. Todas as iniciativas levadas a cabo neste ano de 2022 para festejar a “brasilidade” serão um passo em frente para um melhor conhecimento desse grande país e desse povo que tanto tem em comum com Portugal.

Manuela Marujo

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